sexta-feira, 28 de março de 2008

Com toda a certeza o Melhor Livro da minha Vida...

As quatro décadas de “Outsiders”
Ao ser lançado, nos anos 60, obra chocou leitores por falar sobre adolescentes que fumam, bebem e brigam
por Dale Peck
DIVULGAÇÃO

Poucos livros contam com uma aura tão rica quanto o romance “Outsiders - vida sem rumo”, de S. E. Hinton, que completa quatro décadas neste ano. Em uma época cujo romance padrão para os adolescentes era, segundo a descrição de Hinton, “Mary Jane went to the prom” (“Mary Jane foi ao baile de formatura”), “Outsiders” chocou os leitores com sua apresentação despudorada de cenas em que adolescentes fumam, bebem e brigam.

Apesar de outros produtos da cultura pop terem abordado esses temas – destaque para “Juventude transviada” e “Amor, sublime amor” –, o público-alvo deles eram os adultos. Já “Outsiders”, a seu turno, oferecia uma história "para adolescentes, sobre adolescentes, escrita por uma adolescente". A narrativa sincera e graciosa de Hinton sobre o conflito entre os Socs, ou Socials, e os Greasers (pode-se substituí-los por Jets e Sharks), publicada quando a escritora tinha 17 anos de idade, transformou-se logo em um sucesso e continua a ser o romance para adolescentes mais vendido da história.

Há tempos considerado o responsável por mudar a forma como se escrevem obras de ficção para adolescentes, o romance de Hinton mudou também a maneira como os adolescentes lêem, dando forças a uma geração a fim de que exigisse narrativas capazes de refletir a realidade dela. Na verdade, na obra, a busca por uma literatura que o represente constitui um dos aspectos centrais da crise existencial enfrentada pelo garoto de 14 anos Ponyboy Curtis. O famoso mote do livro, "Mantenha-se Dourado", é uma referência óbvia ao poema "Nothing gold can stay" (“nada de dourado dura”), de Robert Frost. E então há a declaração não muito crível de que o livro teria sido escrito como "tema" para a aula de inglês de Ponyboy: "Alguém deveria contar o lado dele da história, e talvez as pessoas então compreendessem e parassem de tirar conclusões apressadas". Apesar de sua obviedade, esse conselho parece-me crucial ao livro, fornecendo um contexto para a utilização algumas vezes desajeitada de recursos como #deus ex machina# e antecipação de enredo, para não mencionar a escrita em certos momentos mal ajambrada dele. É provável que, no caso de um adolescente, os tropeços reforcem a autenticidade da voz narrativa. Mas o mecanismo de contar uma história dentro da história faz com que a autenticidade alimentada pela rudeza não passe de uma construção estética.
Suspeita-se, no entanto, que o caso aqui seja acidental, ou inconsciente, como também o é, provavelmente, o eco em relação ao enquadramento testemunhal presente em “O apanhador no campo de centeio”, de Salinger ("Se você quer mesmo saber a respeito disso"), que tampouco teria sido uma escolha consciente de Hinton, mesmo caso da opção de tornar literal a passagem de Holden "Se um corpo encontra um corpo vindo através do campo de centeio", transformada na cena de resgate de um grupo de crianças preso em uma igreja em chamas. Na verdade, o que mais me surpreendeu como leitor adulto (e como escritor de alguns romances para adolescentes) é a extensão com que “Outsiders” apóia-se na literatura de sua época, certas vezes obliquamente, como no paralelismo com Salinger, e algumas vezes mais diretamente. Hinton afirmou certa feita que "a maior influência sobre meu texto foram minhas leituras" e citou Shirley Jackson como um de seus autores preferidos. A verdade nua e crua dessa declaração pode ser comprovada nessas duas passagens tiradas dos primeiros parágrafos de “Outsiders” e do livro de 1962 “We have always lived in the castle” (“Sempre vivemos no castelo”), de Jackson.

Primeiro Jackson: "Imaginei muitas vezes que, se tivesse alguma sorte, teria nascido um lobisomem, porque os dois dedos médios de ambas as minhas mãos são do mesmo tamanho; mas tive de me contentar com o que tinha".

Agora, Hinton: "Tenho cabelos castanhos claros, quase ruivos, e olhos verde-acizentados. Gostaria que fossem mais cinzentos, porque eu odeio a maior parte dos caras que têm olhos verdes; mas tenho de me contentar com o que tenho".

Apesar de tamanha semelhança entre duas obras poder ser vista com suspeita nestes tempos de alerta máximo contra o plágio, esse e outros ecos parecem-me essenciais para o sucesso do romance de Hinton. Eles abrandam a complicada natureza do tema do livro ao envolvê-lo em referências, tropos e linguagem familiares a seus leitores adolescentes, e também porque suavizam os temores dos preocupados pais daqueles leitores. Pouco depois do eco de Jackson, por exemplo, o irmão mais velho de Ponyboy, Sodapop, é descrito como um jovem com "16 para 17 anos". Uma citação de ”A noviça rebelde” pareceria deslocada em um romance coalhado de "facas", "revólveres" e adolescentes grávidas, mas é difícil negar o paralelismo depois de Ponyboy ter afirmado que "ninguém na nossa gangue manja de filmes e livros como eu".
Indícios dessa paixão de Ponyboy, e de Hinton, apresentam-se ao longo de todo o livro. A afirmativa de Randy Anderson de que "se o velho dele tivesse dado uma surra com cinto nele, uma vez só – talvez ele ainda estivesse vivo" parece-se bastante com a declaração de James Dean em “Juventude transviada”: "Se ele tivesse a coragem de bater na mamãe ao menos uma vez, então talvez ela ficasse satisfeita". Já a cena em que Dallas Winston fica exibindo uma arma até que os policiais atirem nele resulta de uma mistura entre o clímax daquele filme, quando Sal Mineo é ferido a bala por ficar exibindo uma arma que (como a de Dallas) está descarregada, e o famoso discurso de Natalie Wood em “Amor, sublime amor”, ao perguntar: "Quantas balas?".

Pulando diretamente para as citações tiradas da literatura de língua inglesa: Ponyboy e Johnny deitam-se juntos para enfrentar o frio como Ishmael e Qeequeg em “Moby Dick”. A censura que Pony faz a si mesmo – "Não pense" – é um "código heróico" ao estilo Hemingway. A análise meio mecânica e meio sublime do frostiano "Nothing gold can stay", feita por Johnny, lembra a reação de Mick Kelly à Quinta de Beethoven em “Coração, solitário caçador". E, claro, Pony, testemunha e cronista da morte do amigo, poderia ser o primo do Meio-Oeste Nick Carraway deixado para trás. Se há alguma referência a “O sol é para todos”, eu não consegui encontrá-la, com exceção talvez do nome Boo Radleyesque (apesar de Hinton ter dito que o primeiro livro que ela emprestou da biblioteca foi “Peanuts the pony” (amendoim, o pônei). Então, quem vai saber?). O texto até apresenta opiniões sobre o que seria um material de leitura adequado para um garoto de 14 anos: "Eu li tudo que havia na casa umas 50 milhões de vezes", conta Ponyboy, "até mesmo o livro “Os insaciáveis” do Darry, apesar de ele ter me dito que eu não tinha idade suficiente para lê-lo. Depois que acabei o livro, concordei com ele".

As reflexões intertextuais amadurecem quando Johnny conta a Pony que Dallas lembra-o dos homens do sul em “... E o vento levou”, que os dois garotos liam para enfrentar o tédio enquanto se escondiam da polícia. Na opinião de Johnny, a recusa de Dallas em entregar o amigo Two-Bit, acusado de vandalismo, assemelha-se aos rebeldes confederados "cavalgando para uma morte certa porque eram corajosos". Em um primeiro momento, Pony rejeita essa leitura, mas algo nela chama-lhe a atenção: "De todos nós, Dally era aquele de quem em menos gostava. Ele não possuía a sensibilidade ou o estilo de Soda, o humor de Two-Bit ou mesmo os ares de Super-Homem de Darry. Mas percebi que com esses três eu simpatizava porque eram como heróis dos romances que eu lia. Dally era real. Eu gostava dos meus livros, das nuvens e do pôr-do-sol. Dally era tão real que chegava a me assustar".
Esse trecho do livro é um belo texto – um grande texto – para um adolescente. A "carga real" de Dally torna-se evidente por meio dos personagens da obra; por contraste, os demais membros da gangue, que se limitavam a desempenhar papéis tomados de outros lugares, passam de repente a serem vistos como menos reais, o que permite a Pony compreender por que, no começo do romance, Cherry Valance declara timidamente: "Eu meio que o admiro". O que fica sem ser dito até o final da narrativa é que Pony, como Dally, precisa de um livro para explicá-lo, mas vê-se obrigado a escrever esse livro ele próprio.

Na sua introdução a “Slow Learner” (“Discípulo moroso”), Thomas Pynchon observa que a "atitude adequada em relação à morte" característica da ficção séria está, em geral, ausente da literatura para adolescentes. “Outsiders”, no entanto, talvez passasse no teste de Pynchon. Dally é destemido, o que Pony reconhece como um traço ao mesmo tempo de heroísmo e de tolice. A cena da morte de Dally funde dois dos momentos mais marcantes do cinema norte-americano. A questão não é tanto saber de onde se tirou o material (“Amor, sublime amor” baseia-se, no final das contas, em “Romeu e Julieta”, e o anti-herói de James Dean é um parente distante de Batleby ou de Raskolnikov), mas o que o escritor faz com esse material. O teste dá-se quando Ponyboy resume o conflito entre os Socs e os Greasers como "um problema amplo demais para ser apenas uma coisa pessoal". Salinger não conseguiria safar-se com essa frase, e nem o conseguiria Pynchon, porque os livros dos dois são idiossincráticos demais, diferentes demais. Mas Hinton, então uma adolescente aplicada, escreveu seu livro para trazer à tona a universalidade dos seus Greasers, como Wright e Ellison fizeram com os negros dos Estados Unidos, ou Paley e Roth, com os judeus.

Todas as vezes que me deparei com alguma referência feita por Hinton, fiquei com a impressão de que a autora adotou uma estratégia bem-sucedida. E, ao mesmo tempo, lembrei-me do caso de Kaavya Viswanathan, 19, criticada por emprestar material de várias fontes para compor seu próprio romance. Se algum leitor esnobe, paranóico em relação a acusações de plágio, tivesse convencido Hinton a retirar todas as referências a livros e filmes que a inspiraram, “Outsiders” não teria conseguido passar pelos censores internos (e muito menos pelos oficiais) que controlavam a adolescência nos anos 60. Quarenta anos mais tarde, talvez se consiga ver as emendas da douradura desse romance, mas o coração da inovadora obra de Hinton ainda continua a ser, sem dúvida, de ouro.
© Duetto Editorial. Todos os direitos reservados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixem aquim seus recadinhos pra mim!!!
beijocas da nega aqui!
:d